domingo, 27 de setembro de 2009

Diálogo

-Se abrir talvez te ajude meu rapaz. Disse o dono do bar.
-Ajuda é pra quem tem esperança, mas agradeço a preocupação.
-Só quero que se recomponha e pague a conta, não pense que é o primeiro a se debruçar neste balcão. Já ouvi tantas histórias, de tantos pontos de vista. Quem escolhe o balcão às mesas é porque quer ser ouvido.
-Peço para que não me trate como mais um desgraçado que se perdeu entre os frutos da noite. Não estou aqui para esquecer ou comemorar. Estou aqui por conveniência e talvez eu precise mesmo de alguém para me escutar.
-Mas...?
-Mas o que?
-Nada não. Vou escutá-lo.
Então ele pega um pouco de café de sua própria garrafa térmica, bota uma dose extra de açúcar e entrega ao rapaz dizendo: "Um pouco mais de veneno, mas não apague nenhum cigarro dessa vez."
-Obrigado. A minha história é a seguinte...
Então o rapaz contou sua saga ao dono do bar. Resumiu e ignorou alguns fatos. Para o ouvinte não importava muito.
"Sem dúvida nenhuma é só mais um desgraçado... guardarei meus conselhos pro final. Vou começar a separá-los por categorias." Pensa o vendedor.
-Com certeza não é a pior que já ouvi... mas não quer dizer que seja bom para você.
-Me trata como um bêbado qualquer quando nem toquei na bebida.
-Se bêbado estivesse, não se importaria com isso. Mas prefere tomar o que tras pro mundo e queimar o ar que respira. Se afasta do que te enfraquece, se aproxima da loucura. Amanhã será sede e dor de cabeça, te garanto que é melhor do que qualquer dessas dores que sente.
-Quem é você para saber o que é melhor para mim? Um dono de bar que vive da mágoa alheia?
-Você me pediu veneno, e veneno te dei. Duvido algo te matar tão lenta e dolorosamente quanto o que te deixa acordado até o último instante.
-Era só café!
-Aceita meu conselho. Minha indiferença não é deboche e a sua dor também não é minha.
-Você só ouve o que quer não é mesmo, velho? Mero dono de espelunca.
-Enquanto existirem mágoas e alegrias, meu jovem, existirão bares. O café é por minha conta.
O jovem sem saber muito bem o que sentir se vê entre a ira da indiferença e o respeito da serenidade.
Toma mais um gole do muito doce café, acende mais um cigarro e pergunta:
-Qual seu melhor whisky?

sábado, 26 de setembro de 2009

O desgraçado

Peço doses e mais doses, uma de cada sabor
umas com gelo, outras não,
uma de cada cor...
As que são servidas geladas, com o tempo esquentam e perdem a graça.
As que são servidas quentes, com o tempo esfriam e perdem a graça.
A mensagem é: seja rápido, pois o que é bom no começo acaba perdendo a graça.
Mas as cores não mudam... nem mesmo suave transparência que te permite enxergar através do copo.
As borbulhas, o gelo derretendo, o suor ao redor do copo, o suor das suas mãos.
Uma tragada e um pensamento vago...
Uma tragada e um pensamento vago...
Uma tragada e um pensamento vago...
...
Me pego tragando o filtro
Apago o cigarro em uma bebida qualquer que deixei de tomar
Depois de feito, senti irresistível vontade de provar tal bebida...
Horrível sensação.
O que me deu prazer e me acalmou, agora tem gosto horrível.
Mudou a cor da bebida, adicionou uns flocos negros e a deixou turva.
"Peça algo que queira tomar..."
ouço como se saísse da minha própria cabeça
Educada e calmamente replico: "Me traga um veneno escuro e doce."
Meio cigarro depois, tenho a frente meu pedido.
Se doce, não sei.
Apago o cigarro no copo.
Tomo a bebida escura.
Não é tão ruim assim.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O dono do bar

Já é o segundo copo de veneno e você ainda está de pé.
Mas seus olhos não me enganam, você está prestes a cair.
E não pense em fazer isso antes de pagar a conta.
Você já nem lembra mais o que consumiu não é?!
Está aí, na sua frente... os copos cheios e mornos.
Você sequer os tocou.
Pediu, teve e nem desfrutou dos licores.
Se embriagou só com as cores.
Porque faz isso? Tem medo de se decepcionar com o gosto?
Tem medo que não te faça bem?
POR DEUS, HOMEM! ISSO É UM BAR!!!
Aqui é onde os desgraçados vem para aliviar as dores da alma e desgastarem o corpo.
Você não vem aqui pra viver uma aventura.
Você vêm comemorar ou esquecer.
Eu não costumo julgar ninguém que entra por essas portas.
Mas se não toma a cerveja, não prova o bourbon, apaga o cigarro na vodka...
Então o que você quer?
Me conte a sua história... Talvez te ajude a esquecer.
E mais tarde talvez possa comemorar.

sábado, 19 de setembro de 2009

Cigarro

São as cores e os cheiros ativando suas papilas gustativas
É o cowboy que vive sem leis
A clareza da intensão somada à uma imaginação má
São as suas vontades em um outdoor
É a chance de ser o que você sempre quis.
É o "Fumar causa dependência e pode levar a morte."
Morte? talvez seja uma saída...
O aviso vira um desafio, uma brincadeira com a 'vida'.
"Vida... pff, isso não é vida". Uma armadilha para o seu orgulho.
"Vida é o que o cara da TV leva, tudo dá certo e é bonito"
LCD, Plasma, que seja o antigo tubo de imagem.
Os tons mudam, a realidade não.
É o circo diante o sofá.
Um marlboro, uma coca-cola, sansung, havaianas, e alguns adidas ou polo...
Aí as coisas estariam perfeitas.
E você aí...
fingindo ser quem não é,
sendo tratado como não quer,
num lugar onde você não pediu pra estar, mas está se acostumando.
Você reclama mas não faz nada pra mudar.
Dá cigarro pra um mendigo, empresta o isqueiro.
Segue adiante tentando queimar a realidade.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Pois não?!

Eu não vou te contar
Sobre o que não vai acontecer
Pois você não precisa saber
E na hora não vai perceber
Se tudo que não encontrou
É o que você não quer que se vá
O que não caiu do céu
Você segura para não voar
Eu não prestava atenção
Quando não pude deixar de notar
Que das coisas que não esqueci
Tinha uma que não podia faltar
E não te joguei por aí
Não te atirei pelo chão
Foi numa caixa que não tem tampa
Que não resisti e guardei
tudo que eventualmente não lembraria
e que eu não queria que acabasse
Palavras que não escrevi ou disse
Pensamentos que não cabiam em frases
mas que cabiam em um NÃO
Eu não prestei atenção
Não, eu não fiz questão
Não havia nada claro
Não havia mais razão
Mas não me confunda com birra
Não sou pirraça ou desaprovação
Eu não vou negar tudo
Eu só aprendi a dizer "NÃO"

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Gelo

Duro feito pedra
mais leve que a água
Se mostra pouco, misterioso
Branco ou transparente
Sempre claro
Quando tratado com calor derrete, mas precisa de tempo
Quando começa a derreter é catástrofe belíssima
E quando endurece não escolhe forma
Do jeito que está, permanece
Mas passe o tempo que for
pra que amoleça novamente
precisará de calor e tempo.

Os pequenos derretem em copos, taças, canecas
se misturam em destilados doces e maltes pra que a embriaguês venha um pouco mais lenta, pois a transição é maravilhosa.
Os grandes afundam embarcações, precisam derreter um pouco.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

5 min.

Infinitamente?
Um piscar de olhos?
5 minutos irão durar o quanto você não quiser.
E a psicologia reversa não vai funcionar.

Quantas palavras você consegue dizer em 5 minutos?
Quantas consegue escrever?
Quantos abraços, beijos, socos, chutes, cambalhotas, passos, pulos... ?
E a passiva? será que funciona?
Quantas vidas você conseguiria salvar em 5 minutos?
Quantos acontecimentos você conseguiria evitar?
Consegue escutar alguém por 5 minutos sem falar nada?
Quantas palavras você evitaria de dizer se ficasse calado por 5 minutos?
Quantos sorrisos? Quantas lágrimas?

Não são os segundos que vão contar... não é nem mesmo o tempo.
Cinco minutos podem durar para sempre.
Ecoam sem ser som.
Piscam em sua vista sem ter cor.

Aqueles 5 minutos.

Quanto valem 5 minutos?
Quando atrasam, podem ser trágicos.
Quando adiantam, perdem importância.